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A GUERRA E O DIREITO INTERNACIONAL

Novo Jornal

Ao contrário de muitos (os mais sensatos), que nas últimas duas a três semanas se abstiveram de ver televisão para passar as festas sem ver guerras, nem mortos, nem feridos, e continuam a fazê-lo ou simplesmente a mudar de canal quando, com toda a sua brutalidade, aqueles factos aparecem, eu continuo, talvez masoquistamente, a querer saber o que se passa no mundo.

Assim, assisti e continuo a assistir, impotente, ao que se passa na faixa de Gaza: muitos mortos, muitos feridos, muita humilhação e muita arrogância. Entretanto, a presidência da União Europeia apressa-se a afirmar, doutoralmente, que se trata de uma agressão defensiva; a própria UE, eventualmente envergonhada, tenta reunir consensos sem se comprometer e, sobretudo, sem ofender o todo poderoso Israel; dos EUA já nada se espera com Bush a apoiar a guerra e Obama, para não se comprometer, a fazer um pronunciamento sobre o seu programa económico, sem referir sequer a existência de gente a morrer em massa; a ONU procura, uma vez mais e inutilmente, reunir o Conselho de Segurança.

Não há direito, não há lei, não há tribunal que obrigue a guerra a parar, que possa impedir os grandes de se passear, orgulhosa e arrogantemente, por onde querem, destruindo tudo o que lhes apetece...

Mas, paradoxalmente, muitos estão preocupados em mandar mantimentos, alimentos, roupas e outros paliativos aos que são feridos por causa da guerra, aos que perderam as suas casas, as suas camas, a sua comida e outros bens por causa da guerra, aos que passam fome por causa da guerra. Para quê: para que, bem alimentados, seja mais fácil os tiros atingirem os respectivos alvos? Para que os feridos morram com gessos bem postos e devidamente enfaixados? Para que os mortos fiquem melhor, mais limpos e mais cuidados nas fotografias e na televisão?

Será caso para se escrever uma nova Carta Universal dos Direitos Humanos e dos Povos? Dando aos poderosos e amigos dos poderosos o direito de invadir qualquer território, de destruir casas, lavras e fábricas, de matar mulheres, homens e crianças... desde que os mortos sejam limpos e devidamente enterrados, os vivos fiquem bem gordinhos para que mais facilmente possam ser atingidos pelos tiros e bombas, os feridos sejam devidamente tratados e arrumados para que possam morrer de forma mais asséptica, as mulheres e crianças possam ser reunidos em boas tendas para que se gaste menos munição quando chegar a altura de serem bombardeados, as crianças sejam mortas a rir e a brincar com os brinquedos fornecidos pela comunidade internacional? E, para ser politicamente correcto, a nova Carta deverá legitimar essas novas guerras, excluindo a penalização da poluição e do aquecimento global provocadas por essas guerras dos poderosos contra os pobres e humildes.

As consciências de todos os poderosos e amigos dos poderosos poderão, então, dormir descansadas, num mundo mais limpo, embelezado e de acordo com o novo direito internacional.

Teresinha Lopes